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José Manuel
Nascimento Costa  


José Manuel Nascimento Costa foi eleito presidente da Assembleia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) no passado mês de setembro. O professor catedrático e médico especialista em Medicina Interna e Oncologia Médica conta como está a ser a experiência no cargo e elenca os objetivos que a Assembleia pretende cumprir no atual mandato.


Embora recente, como tem corrido o exercício deste cargo?
Muito bem. Estou, acima de tudo, muito satisfeito e muito honrado por ser membro da Assembleia da FMUC. A circunstância de ser seu presidente é irrelevante, embora seja, claro, gratificante. Mas o importante é, de facto, ser membro da Assembleia. 

A Assembleia é um órgão de aconselhamento estratégico no qual todos estão representados: estudantes, docentes, investigadores e trabalhadores que, não sendo docentes nem investigadores, são indispensáveis à governança e ao funcionamento da Escola. Temos também um elemento, cooptado por unanimidade, o Doutor António Rendas, ex-Reitor da Universidade Nova de Lisboa, que é um homem com muita experiência, que conhece muito bem a universidade portuguesa e que muito tem feito e continua a fazer por ela, sendo um elemento-chave para o plano de desenvolvimento da FMUC. 

É importante reconhecer que eu já fiz parte da anterior Assembleia e, por isso, esta é uma experiência de continuidade, ainda que por pouco tempo, já que me irei jubilar em junho do próximo ano. No entanto, enquanto estou no ativo, tenho todo o gosto em colaborar para o bem da Escola. 


Quais os objetivos da Assembleia para este mandato?
Os objetivos que temos para a Assembleia assentam num projeto de continuidade às anteriores missões da Assembleia, embora com algumas diferenças, como é natural, e que assenta em quatro principais aspetos.

O primeiro aspeto é o da revisitação dos regulamentos e das orientações estratégicas anteriores. Foi feito, no passado recente, um grande esforço no sentido de elaborar um plano estratégico para a Escola, que, aliás, ainda está em vigor [Planeamento Estratégico da FMUC para os anos 2019-2024]. Este plano resulta de um consenso e de um espírito de colaboração. Não sendo, necessariamente, uma matriz incontornável ou de conteúdos que não podem ser melhorados ou ultrapassados, é um documento que representa a alma mater daquilo que é o pensamento da FMUC, relativamente ao seu futuro próximo. E com as adaptações necessárias à mudança dos tempos – e também, às vezes, das vontades, diga-se em abono da verdade – uma das primeiras tarefas a que a Assembleia se propôs é, precisamente, a de revisitar este documento e envolver toda a Escola numa reflexão acerca das suas especificidades e compromissos.

O segundo aspeto diz respeito ao facto de considerarmos importante que, para além daquilo que são as reuniões formais da Assembleia, as chamadas reuniões ordinárias, sejam também realizadas algumas reuniões fora desta calendarização formal, para as quais convidaremos pessoas para falarem sobre temas importantes para a FMUC. A ideia é a de promovermos cerca de quatro ou cinco conferências anuais, dirigidas para toda a comunidade académica, para que a informação não fique apenas dentro da Assembleia, por assim dizer. Sobretudo agora, como resultado da pandemia, em que houve, mais do que nunca, uma abertura às plataformas telemáticas, pretendemos que estas conferências decorram online, e que possam contar, como dizia, com a presença de personalidades que consideramos de alto relevo e importância, e com a divulgação de matérias que nos deem perspetivas diferentes, que abram a FMUC ao mundo contemporâneo. Está já decidido que o primeiro debate desta natureza terá como convidado o nosso presidente da Câmara, o Professor José Manuel Silva, aliás também membro da Assembleia da FMUC, para o ouvirmos falar sobre os desígnios da cidade de Coimbra, o seu enquadramento e a sua relação com a Universidade. 

O terceiro aspeto do nosso plano de ação prende-se com um acompanhamento mais pormenorizado dos processos de desenvolvimento infraestrutural que se encontram em curso na nossa faculdade. Refiro-me ao acompanhamento do desenvolvimento do Polo III, Polo das Ciências da Saúde. Há muitos anos, tive a honra de ter sido Pró-Reitor da Universidade de Coimbra [UC]. Nessa altura, contribuí para o financiamento e planeamento deste polo, e esse foi um momento da minha vida académica que muito me satisfaz e honra. Muito foi feito, mas muito há ainda por fazer, como a construção do edifício UC Biomed. Nesse âmbito, acho que, para além daquilo que é a obrigação dos órgãos mais executivos da FMUC, a sua Assembleia tem também a necessidade e a obrigação de conhecer o andamento destes processos, uma vez que é, sobretudo, no seu seio que se consigna a interação dos diferentes corpos de uma faculdade. Este acompanhamento por parte da Assembleia não significa outra coisa que não seja termos acesso a informação sobre os processos em curso para, humildemente, podermos dar a nossa contribuição.

O quarto e último aspeto da nossa ação tem como propósito uma estratégia de interligação com as outras Escolas. Não gosto de estar sempre a falar de internacionalização, mas o facto é que é importante que a FMUC tenha um sentido estratégico sobre isso também, assente nos órgãos próprios e adequados para tal, como o Gabinete de Relações Internacionais e Interinstitucionais, mas que nos permita igualmente a nós, enquanto Assembleia, pensarmos em alguns contactos com outras Faculdades e areópagos. Esta é uma intenção que ainda não está amadurecida, mas que gostávamos de concretizar. 

Em suma, este programa será evidentemente um caminho que se irá fazendo caminhando. Tudo tem um começo, um meio e um fim. Eu não tenho um programa de ação propriamente dito, é a Assembleia que o tem. Eu tenho a nobre missão de ser o seu presidente, mas sou apenas um membro como os outros. O meu papel é meramente representativo. Todos trabalhamos com o mesmo afinco, empenho e responsabilidade. Por isso, acho que a minha ausência a partir de junho de 2022 é apenas uma minudência no meio de tudo isto. Acredito que a Assembleia manterá a dinâmica para continuar a desenvolver este projeto e a cumprir estes aspetos de que falei. 


Referiu que a Assembleia é um órgão no qual todos estão representados. Em termos práticos, como é trabalhar e organizar reuniões com um grupo tão diverso e abrangente?
Tem sido muito simples, porque estamos todos alinhados com a mesma ideia. Temos um secretário muito experiente, que vai já no seu terceiro mandato na Assembleia, o Doutor Flávio Reis, que é uma pessoa muito dedicada e que tem feito um excelente trabalho. A Assembleia é constituída por um grupo de pessoas que só lá estão por vocação, não estão por obrigação nem por outro objetivo que não seja o de pensar a Escola e de ter sobre ela um pensamento estratégico.

Acho que todo o grupo está muito motivado. O facto de estarmos a planear mais reuniões do que aquelas que são habitualmente realizadas também tem mobilizado as pessoas. O nosso interesse, único e comum, é mesmo a faculdade. 


E para si, o que significa ser eleito presidente da Assembleia? 
Para um final de carreira académica, é um orgulho, uma honra e um sentido de dever cumprido. Sinto-me muito honrado também por ter sido eleito por unanimidade e por desempenhar esta missão na Assembleia. Acho que chego aos meus 70 anos de idade com a sensação de que cumpri com a minha obrigação. 


Neste momento, mudaria alguma coisa na FMUC, ou considera que a Escola está no caminho certo? Ou seja, esse caminho passa mais pela continuidade ou pela mudança?Acho que, se a Faculdade não mudasse, estaríamos mal. A Escola tem de mudar, não digo todos os dias, mas muitas vezes por ano! A Escola não pode estar parada, isso seria muito mau sinal. 

Respondendo à questão de uma forma indireta – mas que é verdadeira, pública e notória – digo que o Professor Carlos Robalo Cordeiro, atual diretor da FMUC, agora no seu segundo mandato, foi eleito por unanimidade, depois de ter apresentado o seu programa de ação, em voto secreto. Acho que isso só pode significar que as pessoas apreciaram o seu trabalho e acreditam que a continuidade do seu exercício fará da Escola uma Escola melhor todos os dias. 

É evidente que ninguém faz as coisas sozinho, e que não existem só consensos, mas ainda bem que assim é e que há dissensos. É isso que engrandece, efetivamente, o quorum, seja em que Conselho for. Uma Escola sem reflexão, sem contraponto ou sem contraditório é uma Escola morta, que não é ativa ou pró-ativa. Não queremos uma Faculdade arrivista, mas sim uma que cumpra com as suas obrigações, que seja um lugar, antes de mais, de reflexão em prol da ciência e do saber. 

Por isso, e respondendo agora diretamente à pergunta, acho que a FMUC tem de mudar, com certeza. Todos desejamos que mude, e para que isso aconteça contamos com todos em geral e em particular com as pessoas que constituem os órgãos de gestão a quem foi confiada essa missão e em quem a Assembleia confia plenamente. 











Conforme referiu, jubila-se no próximo mês de junho. Agora que está a chegar ao fim da sua carreira académica, que balanço faz dessa parte do seu percurso de vida na FMUC, e do que mais se orgulha?
Digo com sinceridade que acho que poderia ter feito muito mais do que aquilo que fiz. Tenho essa humildade, de reconhecer que é sempre possível fazer mais e melhor, não tenho qualquer dúvida sobre isso. E este é um estado de espírito normal, não é uma penitência nem uma confissão ou até a assunção de uma derrota, é apenas honestidade.

Estou ligado à FMUC desde 1969. Ao longo de tantos anos, houve, claro, alguns momentos melhores do que outros, mas é normal que as pessoas, durante a sua vida, tenham os seus amores e os seus desencantos. Faz parte da condição humana. Eu não fujo à regra do cidadão comum, que é o patamar em que gosto de me situar. Porque sou, verdadeiramente, um cidadão comum. Não tenho nada de excecional, sou uma pessoa banal. E esta minha singeleza de espírito, bem como a minha frontalidade, têm sido a minha marca principal, ao longo da minha carreira. Sou um homem banal, frontal e sincero. E, portanto, sou igual a mim próprio. As pessoas conhecem-me nesta condição e, assim sendo, sabem com o que podem e não podem contar. Por isso, esta é a primeira conclusão que eu tiro: podia ter feito mais, mas nunca deixei de ser igual a mim próprio.

Foi a FMUC que me ensinou a ser médico, não apenas nos bancos da escola, enquanto estudante, mas também através do exemplo dos meus professores, da experiência no ensino e das vivências no hospital universitário. Sinto-me muito realizado como médico. Não é fácil para um médico sentir-se realizado, mas temos um barómetro que nos permite chegar a essa conclusão com algum rigor, e que é a opinião dos nossos doentes, dos familiares dos nossos doentes e dos nossos pares.

Ao longo de todos estes anos de profissão, tenho tido sempre essa feliz oportunidade de reconhecer que tenho sido um médico que os doentes procuram e respeitam, e por isso sinto-me realizado com aquilo que vou fazendo. Claro, não tenho só sucessos, também tenho insucessos, cometi e cometo erros: sou humano. Mas o balanço é positivo.

Gosto muito de ser médico, tal como o meu pai o foi. O meu pai era um grande médico, que foi reconhecido pelos seus pares e pela população que serviu nessa qualidade. E eu sempre o tive como exemplo, e acabei também como objeto de reconhecimento pelos meus pares. Recebi, este ano, uma Medalha de Mérito, atribuída pela Ordem dos Médicos, que testemunha uma carreira de 45 anos, de um médico que cumpriu sempre com a sua obrigação. Esse foi para mim um momento muito gratificante e de grande satisfação.

Destacando outros aspetos importantes do meu percurso, gostei muito também de ter sido pioneiro a nível nacional, juntamente com o Professor Jorge Veiga, da implementação e desenvolvimento do Programa Erasmus, que à data se chamava Programa Sócrates, nos cursos de Medicina em vários países. Ambos percorremos 28 escolas de Medicina da Europa, aprendemos a harmonizar os currículos e desenvolvemos, com outros, entre os quais alguns Professores da nossa Escola que também tiveram papel de relevo, aquilo que hoje todos reconhecem ser útil e importante, o European Credit Transfer System (ECTS), que foi testado e validado por nós para aplicação nos cursos de Medicina e nas demais áreas de formação superior, e que é, desde então, a base instrumental da mobilidade de estudantes em toda a União Europeia, e a matriz do reconhecimento automático da formação nos seus diferentes países constituintes.

Também foi muito importante para mim ter sido Pró-Reitor para o Desenvolvimento Patrimonial da UC. Nessa altura, o Polo II tinha acabado de ser construído, por isso fiquei com a missão de pensar o Polo III. E foi aí que se decidiu colocar no mesmo espaço tudo aquilo que se relaciona com as Ciências da Saúde, designadamente a FMUC e a Faculdade de Farmácia (FFUC). Houve algum conflito inicial em juntar estas duas faculdades no mesmo espaço, mas fui uma das pessoas que lutou por isso com determinação: se são Ciências da Saúde, quanto mais próximo estivermos uns dos outros, mais força teremos, e mais interação só pode gerar valor acrescentado, e não conflitos de interesses.

Ainda nesta missão enquanto Pró-Reitor, foi necessário criar um programa de construção do Polo III que pudesse ser financiado a 75 por cento pelos programas europeus e ter a contribuição de 25 por cento a nível nacional. Nesse sentido, foi feito um imenso trabalho, para que houvesse a possibilidade de concorrer, em tempo útil, a financiamento para o Polo III. E isso foi feito e assim se construíram vários edifícios. Só estava construída na altura parte da Subunidade 1, todo o resto que está erigido neste Polo foi criado, planificado e em grande parte edificado durante o exercício do meu cargo enquanto Pró-Reitor.

As pessoas por vezes criticam as instalações por serem de fraca qualidade estrutural, mas esquecem-se de que a construção de obra pública obedece a regras que não permitem que a construção por metro quadrado ultrapasse um determinado valor. Sabemos que muitas das coisas poderiam ter sido construídas de forma diferente, mas onde estava o dinheiro para poder fazê-lo? As verbas eram limitadas e não as podíamos ultrapassar. Os prazos para a sua edificação eram apertados, os financiamentos comunitários estavam a esgotar-se. A cantina, a residência universitária, a Biblioteca das Ciências da Saúde, a restante Subunidade 1 e o ICNAS [Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde], a Unidade Central e a Faculdade de Farmácia foram criadas com recurso a esta dinâmica de financiamento e de execução. Muitos para isso contribuíram, mas como disse, tive a honra e a satisfação de coordenar a equipa. Tudo isto foi feito com grande empenho e devoção. Foi uma vitória importantíssima para a Universidade e para Coimbra.

Seguramente que outro momento alto da minha vida foi ter sido presidente do Conselho de Administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra e de, no desempenho desse cargo, ter mantido sempre a posição de ser um universitário, também médico hospitalar, à frente de um hospital, defendendo a missão tripartida de um hospital universitário, com afinco: ensino, investigação e prestação assistencial.

Finalmente, foi também uma grande honra para mim ter feito parte, por convite do Reitor, da Assembleia Estatutária da UC. Aí, aprendi muito com pessoas notáveis, e isso deu-me uma grande formação intelectual. Seguiram-se dois Conselhos Gerais da UC onde me realizei na plenitude.

Portanto, tive uma vida preenchida como universitário, mas nunca me cansei. Aquilo que é verdadeiramente a minha coroa de glória, perdoem-me a expressão, é a de ter sido um médico reconhecido pelos meus doentes e pelos meus pares. É isso que mais me importa, e considero que esse reconhecimento foi alcançado pela minha dupla condição de profissional de saúde e docente universitário.


por Luísa Carvalho Carreira
fotografias de Carina Monteiro


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