Casa da Esquina 

Fora da Medicina

A Casa da Esquina é um projeto associativo que nasceu em 2007, em pleno auge de uma crise. Nessa altura procurávamos fazer a diferença no panorama cultural de Coimbra, onde nos situávamos, começando por pensar em projetos dentro daquilo que conhecíamos, o teatro e as artes manuais.

Mas cedo percebemos que isso não chegava e que, chegada a oportunidade de termos um espaço, precisávamos de o preencher com outros conteúdos e entidades porque a cultura e a arte são um trabalho coletivo.

Começámos por um registo exclusivamente cultural com cinema, fotografia e restantes artes plásticas, mas logo vieram os projetos sociais e as economias alternativas e de facto, tudo se encaixou como num puzzle. Assim fomos acrescentando peças, que apesar de aparentemente dispersas, funcionavam e davam sentido ao conjunto das nossas reflexões sobre o que é a cultura.

Mais do que criar um espaço cultural queríamos criar um espaço de pensamento sobre as transformações, afinal entre a crise e as alterações climáticas, havia que repensar a cultura, a economia, e sobretudo a nossa forma de estar em sociedade. Ao pensarmos sobre como viver a cidade, chegámos à conclusão de que precisamos de novos paradigmas sociais e económicos e foi aí que surgiram os projetos ligados à economia solidária.






A partir da ideia simples de que nem sempre precisamos de dinheiro para adquirir bens, começámos a pôr em prática projetos como o Mercado de Trocas para Crianças e Jovens que permitiram não só perceber que não é necessário o dinheiro, como também que é possível prolongar a vida dos objetos tendo sempre produtos novos e que despertam o interesse das crianças.
Conseguimos assim enraizar, primeiro nas crianças, o princípio do desapego ainda que ligado ao princípio da abundância, pois ao mesmo tempo que as crianças selecionam brinquedos para levar ao mercado, também o fazem na expectativa de poder trazer mais brinquedos novos, uma vez que os valores e os objetos disponíveis são suficientes para que todas as crianças possam sair do mercado com um grande número de objetos.
De seguida, alargámos o âmbito das trocas para as pessoas adultas e notámos mais facilidade em aceitar estes princípios quando se trata de produtos específicos como roupa ou livros.

Daí nasceram a Troca de Roupa! e a Feira do Livro Dado, duas formas de troca onde se pode mais uma vez ter bens sem recurso a dinheiro e sem comprometer a qualidade e a quantidade.

No caso da Troca de Roupa, o que acontece é a disponibilização de um espaço de troca de roupa em que durante 3 horas quem quiser pode deixar roupas num cabide coletivo e escolher desse cabide coletivo tudo o que quiser levar. Não há troca direta, correspondência na quantidade de roupas trocadas, pelo que cada pessoa pode trazer um máximo de 15 peças e levar as que quiser.

As mesmas regras se aplicam à Feira do Livro Dado, onde cada pessoa pode trazer um ou mais livros que já não queira e levar os livros que mais gostar ou precisar sem dinheiro e sem troca direta, pois chegados os livros à feira, ficam à disposição de todas as pessoas. Interessa aqui que haja produtos suficientes para haver dinâmica de trocas e também que esses produtos estejam em bom estado.

Estes projetos juntamente com projetos de costura e upcycling, utilizando a nossa roupa para fazer uma nova, que promovemos na Casa, são formas diferentes de estar no mundo e pensar sobre o consumo.

Os objetos como roupa, brinquedos e livros têm uma extensão de vida bastante lata, sendo possível reutilizar e reformar antes de os reduzir ou reciclar.

Entendemos assim a nossa atividade como um todo em que a cultura e a intervenção social se juntam para dar lugar a um projeto de cruzamento disciplinar que entendemos como complementar, porque para nós a cultura não é indissociável daquilo que experienciamos ou de como vivemos o dia a dia.

O Teatro, performance, leituras, artes plásticas, cinema, continuam a fazer parte da nossa programação.





Desde o início que fazemos uma produção nova de teatro cada 2 anos e desde 2018 que temos vários projetos de continuidade como o Paradocma, mostra de cinema social e ecológico, o Marquise, projeto de ilustração que expõe artistas mais e menos consagrados ou mais recentemente o Agora é que são elas!, projeto que nasceu como um espaço de reflexão e conversas sobre o lugar da mulher nas diversas esferas da sociedade, que mais recentemente produziu um ciclo de poesia escrita e dita por mulheres.

A Casa é um projeto dinâmico, não só no âmbito da sua programação própria como também dos parceiros que nela habitam e outros que com ela acabam por criar afinidades.

Filipa Alves
Casa da Esquina


Fotografia de topo de Tiago Cerveira