É na Psiquiatria que tem desenvolvido a sua vasta atividade profissional, de quase cinco décadas e, por esse motivo, diz ser, acima de tudo, médico. Mas o relato de alguns episódios da sua vida revela-nos a dedicação a outros interesses, bem distintos da especialidade médica que escolheu exercer. Pelo menos, à primeira vista. Ou ao primeiro pensamento.
Nascido em Santarém, em 1944, José Luís Pio Abreu guarda da infância memórias de momentos passados com os avós, pais e irmãos, e de muitas leituras, brincadeiras e passeios de bicicleta, mas também dos correios. “Costumo dizer que nasci entre fios de cobre e selos de correio! O meu pai foi telegrafista na tropa e, depois, foi trabalhar para os correios, onde também trabalhava a minha mãe. O meu pai tinha a cargo a manutenção da central elétrica de Santarém”, explica. “Toda a família estava a trabalhar nos correios, em Almeirim, Santarém e Benfica do Ribatejo. A minha avó tinha a central telefónica, daquelas onde se tinham de ir colocando as fichas para fazer ligações, e eu costumava ir para lá fazer leituras: lia muito!”, acrescenta.
Foi em Santarém que frequentou a Escola Primária e o Liceu. E é no Liceu que a política entra na sua vida. “Fui fazendo várias amizades com os meus colegas e, uma vez, organizámos uma espécie de cortejo e fizemos uns cartazes, que o regime não gostou e, por isso, proibiu-nos as festas: eu teria uns 15 ou 16 anos e esse foi o meu primeiro embate político”, recorda, “e lembro-me também de um comunicado que escrevemos nessa altura, em que dizíamos que não tínhamos voz, mas que, depois, servíamos de carne para canhão na guerra”.
Aos 18 anos de idade, muda-se para aquela que é conhecida como sendo a cidade dos estudantes, quando ingressa no curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). Ao longo dos anos de curso, José Luís Pio Abreu frequentou, primeiro, a República dos Galifões, mudando-se, posteriormente, para a Real República Palácio da Loucura. Porém, como faz saber, os fins de semana continuaram a ser passados em Santarém e na companhia dos amigos do Liceu, com quem mantinha discussões políticas.
“O meu pai queria que eu fosse para Engenharia, mas eu disse-lhe que não: disse que ia para Medicina e que ia para Coimbra”, afirma. Nessa decisão, é possível que Freud tenha tido alguma influência, já que José Luís Pio Abreu conta que, antes de ir para a faculdade, a Psicanálise era um dos temas de eleição para as suas leituras na biblioteca. “Desde cedo, sempre li muitas coisas sobre Psicologia, de Freud e de outros autores clássicos”, indica. Por isso, não é de estranhar que tenha aprendido a fazer hipnose, embora confesse que a experiência foi, no mínimo, intensa e desgastante. “Aquilo correu bem, mas deu cabo de mim! Tive até uma úlcera, e uma hemorragia que me fez ficar três meses de cama”, confessa.
Quando se muda para Coimbra e ingressa na FMUC, os efeitos da crise estudantil, ocorrida no ano anterior, em 1962, e as hostilidades políticas contra o regime eram notórios: “os estudantes estavam em alvoroço, nomeadamente com a guerra colonial”. José Luís Pio Abreu comenta que, por volta de 1965, começou a envolver-se, cada vez mais, nos movimentos estudantis que criticavam a guerra e exigiam a democratização do ensino superior.
Até que, a 17 de abril de 1969, começa, em Coimbra, uma nova crise académica, quando os estudantes que queriam usar da palavra durante a inauguração do Edifício das Matemáticas foram impedidos de fazê-lo. O governo respondeu à greve e à falta aos exames por parte dos estudantes com a integração forçada nas forças armadas e com a mobilização destes para a guerra colonial. José Luís Pio Abreu foi um desses estudantes.
“Isto aconteceu quando estava a fazer o estágio em Medicina. O diretor da FMUC dizia que eu era estudante e o reitor da Universidade de Coimbra dizia que eu era médico. Nunca se entenderam muito bem: o facto é que fui um dos 40 estudantes que foram para a tropa de castigo”, refere, “mas consegui terminar o curso, mesmo estando já em Mafra, na recruta, porque, apesar das faltas que dei às aulas, como eram faltas que não chegavam a três meses, davam o direito a ter o diploma”.
Já com o diploma nas mãos, José Luís Pio Abreu ainda esteve cerca de um ano em Braga, onde fazia consultas médicas no quartel, e em Setúbal, antes de ser destacado para ir para a Guiné. “Fui para a guerra colonial por ser contra a guerra colonial, é muito engraçado”, ironiza. Na chegada, em 1972, o barco onde viajava foi recebido por António de Spínola, à data, governador da Guiné, que queria saber dos “estudantes de Coimbra”.
Aquilo foi complicado… Andei sempre no mato”, conta, explicando que, por ter ido já com o curso terminado, foi possível continuar a exercer medicina, ao contrário de alguns colegas: “como tiveram de interromper o curso para irem para a guerra, foram para os tiros”. Durante o tempo na Guiné, deixou sempre claro que era contra a guerra. Em Teixeira Pinto, onde ficou numa das colocações enquanto lá esteve, tinha afixado, na parede, o poema “Receita para fazer um herói”, de Reinaldo Ferreira:
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.
“Quando os oficiais nos vinham visitar, olhavam para o poema e diziam que também eram contra a guerra, e foi aí que comecei a perceber que os militares estavam todos fartos e queriam acabar com aquilo”, menciona. A experiência na guerra é, compreensivelmente, algo difícil de esquecer. “A tropa foi a minha universidade”, garante. Por isso, José Luís Pio Abreu afirma que a crise estudantil de 1969, a guerra colonial e a revolução de 25 de abril de 1974 foram os três momentos mais marcantes da sua vida: “para além do nascimento dos meus filhos”, assevera.
Regressou a Coimbra ainda antes de 1974. “Quando chego, vou acabar o internato geral e entro nos serviços médicos, em Endocrinologia. Depois é que entro, por concurso, na Psiquiatria, como interno”, esclarece. “Sempre gostei da Psiquiatria, como se percebe pela história da hipnose! Mas, nessa altura, eu sabia fazer aquilo, só que não sabia o que se passava concretamente e quais os fundamentos da hipnose: agora, isso já se sabe”, avança, contando que, ao entrar para a Psiquiatria, acabou também por interessar-se pela Neurologia, trocando muitas impressões com médicos dessa área. “As ligações cerebrais têm muito a ver com as ligações telefónicas, e isso era uma coisa que me deslumbrava, porque o meu pai estudava as ligações telefónicas e eu, anos depois, começo a ver, no cérebro, ligações semelhantes… Fiquei fascinado com isso!”, confessa.
Nessa altura, José Luís Pio Abreu foi, inclusive, incentivado a fazer uma tese sobre a hipnose, mas preferiu não ir adiante com a ideia, e apenas mais tarde decidiu fazer o doutoramento, ainda que com uma tese dedicada a outro tema. “O Professor Vaz Serra falou-me na possibilidade de fazer a tese e o Professor Nunes Vicente queria que eu a fizesse nessa área da hipnose, mas, na altura, disse que não, que não havia hipótese… Não havia TAC [Tomografia Axial Computorizada], não existiam exames de Imagiologia Cerebral, nem sequer angiografias, só mesmo o raio-X do crânio”, justifica.
À carreira clínica, acabou por juntar-se a carreira académica. Algo que não estava nos planos de José Luís Pio Abreu. “Comecei a trabalhar no hospital e, logo a seguir, veio o 25 de abril: com a revolução, não há professores, somos todos médicos, todos ensinamos uns aos outros e o povo é que sabe”, brinca, “por isso, nesses tempos, dei aulas, mas pro bono”. A certa altura, acabou por considerar que fazia sentido a entrada formal na carreira académica, tendo também decidido fazer o doutoramento: “fiz uma tese em Psiquiatria Biológica, com neurologistas”.
José Luís Pio Abreu explica que estudou, no âmbito do doutoramento, as consequências psiquiátricas de duas doenças neurológicas: a doença de Parkinson e a coreia de Huntington, precisamente por serem duas doenças neurológicas bem definidas e que apresentam sintomatologia psiquiátrica. “Fiz a tese, mas não foi sobre hipnose!”, graceja. De facto, só mais tarde, quando prestou provas de agregação, é que a hipnose assumiu novo protagonismo na sua vida, quando fez “uma tese sobre hiperventilação e ansiedade”.
As intensas atividades clínica e de ensino, que manteve, simultaneamente, por cerca de 40 anos e às quais se juntou ainda o desempenho do cargo de presidente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama (SPP), faz com que afirme, de modo peremptório, que escreveu “artigos mais importantes depois de reformado”, já que, antes, pouco tempo restava para a investigação. No entanto, considera também que a experiência enquanto professor foi fundamental, já que o obrigava à reflexão.
“Comecei o meu percurso mais ligado à Psicoterapia, passei para a Psiquiatria Biológica, mais próximo dos neurologistas do que dos psiquiatras, e voltei novamente à Psicoterapia… A Psiquiatria não é fácil, faz-nos estar sempre a aprender. Ainda hoje há tanto que não se sabe”, declara. Por isso, assume que esta especialidade é um desafio permanente, “o maior que um médico pode ter”, bem como o seu fascínio pelas Neurociências. “Só há muito pouco tempo começou a descobrir-se que as TAC revelam dados importantes em relação aos doentes psiquiátricos, antes sabia-se muito pouco… Vai descobrir-se o mundo a partir daí [das Neurociências]”, afirma.
José Luís Pio Abreu deixou, há cerca de oito anos, a atividade enquanto professor da FMUC e a prática clínica nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). Atualmente, a atividade clínica é ainda exercida, mas somente em contexto privado, e complementada com a escrita e publicação de diversos livros, sobre Psiquiatria, mas dirigidos ao público em geral. Uma atividade que, aliás, começou quando ainda era professor na FMUC e médico nos HUC. “Para mim, a Psiquiatria sempre foi um desafio difícil, como dizia. Quando ensinava, dava muitas aulas de mestrado sobre Psicopatologia, ou seja, sobre o que se passa dentro de nós até termos a doença, ou sobre aquilo que vai fazer com que tenhamos determinada doença”, explica.
Na tentativa de responder a estas questões, José Luís Pio Abreu tem escrito e publicado, ao longo dos anos, vários livros, como, Introdução à Psicopatologia Compreensiva, Elementos de Psicopatologia Explicativa (ambos editados pela Fundação Calouste Gulbenkian, com a qual colaborou ainda numa tradução: Neurofisiologia Sem Lágrimas), O Modelo do Psicodrama Moreniano, Comunicação e Medicina, O Tempo Aprisionado: Ensaios não Espiritualistas sobre o Espírito Humano, Como Tornar-se Um Doente Mental, Quem nos Faz como Somos, Estranho Quotidiano, O Bailado da Alma, e A Queda dos Machos: cartas às minhas amigas.
Numa entrevista dada aquando do lançamento de Estranho Quotidiano, livro publicado em 2010, foi-lhe pedido que fizesse um diagnóstico psiquiátrico à sociedade de então. A resposta? Esquizofrenia. Por isso, fez-se necessário saber se, passados 11 anos, o diagnóstico se mantém. Aparentemente, sim.
“O grande sintoma dos esquizofrénicos é pensarem que todas as pessoas sabem o que eles pensam, que todos lhe conhecem o pensamento e, por esse motivo, inibem-se de pensar”, explica. “Hoje, já não guardamos os pensamentos apenas na nossa cabeça. Os nossos pensamentos mais íntimos e a nossa vida privada estão no Facebook e nas mensagens que escrevemos, que enviamos e que ficam registadas: de um momento para o outro, todos podem saber o que pensamos, porque deixou de haver privacidade”, constata.
Numa altura em que estas dinâmicas interpessoais são, cada vez mais, mediadas por diferentes meios de comunicação e redes sociais – uma situação que, para o bem e para o mal, a atual pandemia veio potenciar – e que o custo a pagar por uma comunicação rápida e imediata é um distanciamento físico cada vez maior, o grande desafio será deslindar como irão evoluir as relações humanas. “Não sei como vão evoluir, mas há algo que está a desaparecer, que é a empatia, que se consegue através de um contacto direto e interpessoal. E as pessoas que não têm empatia entram em esquemas persecutórios”, observa.
O atual contexto pandémico, que nos tem levado a um necessário distanciamento físico, tem tido, igualmente, um impacto considerável na saúde mental. Embora admita que, por estar a exercer apenas clínica privada, não vê, naturalmente, tantos doentes como se estivesse ainda nos HUC, José Luís Pio Abreu afirma que tem recebido doentes com alterações do sono, ansiedade, medo e também revolta, geradas pela vivência da pandemia. “As pessoas, ou ficam paralisadas, ou então descambam, zangam-se, revoltam-se e interpretam tudo mal. Temos estas duas reações, e quando o regime em vigor é muito coercivo, ainda é pior”, refere, concordando que a pandemia irá deixar uma ferida naqueles que a vivenciaram. “A guerra também deixou essa ferida: não é nada que não se possa ultrapassar”, garante, “mas é fundamental voltarmos ao contacto interpessoal, e sem máscara”.
José Luís Pio Abreu confessa que sempre quis ser médico e que, por isso, nunca pensou sequer em ter outra profissão. No entanto, o sucesso que tem tido com os livros publicados – Como Tornar-se Um Doente Mental, traduzido para espanhol e italiano, ganhou, inclusive, o prémio italiano ‘Città delle Rose’, em 2006 – demonstra que além de psiquiatra, é também um escritor consagrado.
Do mesmo modo, o seu percurso de vida revela-nos que foi professor e, em tempos, político, “numa altura em que a política não dava dividendos”, como proferiu, em tom de brincadeira, numa TEDx Talk, em 2013. “Só dava chatices!”, complementa agora, quando questionado acerca dessa experiência na política, na qual diz ter estado envolvido por considerar que, de certa forma, os políticos são psiquiatras das cidades. “Um político mantém a identidade de um país, e um psiquiatra faz isso sobre a nossa própria identidade”, observa.
Além disso, garante que a música e a matemática também têm um lugar de destaque na sua lista de interesses. Quanto à música, José Luís Pio Abreu conta que, até aos dez anos de idade, estudou música em Santarém, e que nos tempos de estudante universitário, tocava guitarra e integrou a tuna, da qual chegou a ser presidente, embora não por muito tempo. “A PIDE não deixou, aquilo não foi homologado e fizeram-se novas eleições”, indica. “Cheguei a ir com o Rui Pato [guitarrista de Zeca Afonso] a Lisboa, para irmos buscar o Duarte Costa [professor e guitarrista], que veio ensinar a tuna a tocar guitarra clássica”, recorda.
Hoje, confessa que já não se dedica tanto a estes dois interesses. No entanto, continuam a fazer parte da sua vida, até porque parece que conseguiu transmitir o entusiasmo por estas áreas a pessoas próximas: “um dos meus filhos é matemático e o outro é guitarrista”. Por agora, tem estado dedicado a outro interesse. Até ao final deste ano, haverá um novo livro para juntar à extensa lista de obras que já publicou. “É uma pequena história da Psiquiatria”, revela, “agora que todos andam a falar sobre a mente”.
por Luísa Carvalho Carreira
fotografias gentilmente cedidas por José Luís Pio Abreu